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TEXTOS
Texto de abertura de Exposição do Núcleo de Estudos em Linguagem Fotográfica da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de são José dos Campos.


Citações

Ronaldo Entler


“Citações, no meu trabalho, são como bandidos numa estrada que, armados, assaltam os viajantes para lhes roubar as convicções”.
(Walter Benjamin, “Rua de Mão  Única”, 1928)

 

Todos os anos o Nelfoto (Núcleo de Estudos em Linguagem Fotográfica da Fundação Cultural Cassiano Ricardo) elege um tema para ser desenvolvido na forma de um exercício. Para este ano, não se tratou exatamente de um tema, mas de um procedimento.

A idéia foi partir de uma obra já existente (uma música, uma frase, uma pintura, uma escultura, um filme ou mesmo uma fotografia) e tomá-la como referência para o tranbalho fotográfico. Foram válidos o aproveitamento de traços estilísticos ou temáticos de um autor, releituras que inserem quetões levantadas por uma obra dentro de um novo contexto,  traduções que transformam em visualidade o produto de uma outra linguagem etc.

Chamamos esse procedimento de citações.

O que se pode ver na exposição é um resultado heterogêneo. Mas houve em comum a necessidade de uma intensa reflexão sobre o processo de criação fotográfica. Já não bastava sair pelas ruas à caça de belas imagens. Era preciso compreender a obra a ser citada, articular conceitos, e só então pensar a construção da fotografia-citação. E, assim, convidamos também o espectador a ir além da contemplação das imagens.

Esse exercício revela o potencial que a fotografia tem de operar idéias, transcendendo o mero registro. Reflete também um fenômeno atual de nossa cultura, a chamada pós-modernidade, em que a arte se permite olhar para seu passado sem perder em autenticidade. E descobrimos que a reformulação e a ressignificação são também processos de criação.

Ao citar alguém, não repetimos simplesmente. Envolvemo-nos num trama de interações: revisitamos a história, nos projetamos nela, homenageamos ou questionamos seus personagens, identificamos nossas influências, reconhecemos humildemente o prestigio de um autor, ao mesmo tempo que, sorrateiramente, nos armamos dele. Enfim, não reproduzimos suas obras, mas as reciclamos em nossa própria expressão.