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PORTFOLIO |
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O que ainda há para ser visto Ronaldo Entler, Os meios de comunicação nos permitem acompanhar passo a passo o que acontece em todos os pontos do planeta: esse é o fenômeno que chamamos de globalização. Pertencemos a uma geração que já nasceu bombardeada pelas imagens e dificilmente temos a sensação de estar vendo alguma coisa pela primeira vez. A informação nos mantém atualizados, mas raramente elas nos revelam algo verdadeiramente novo. Depois de mais de um século, desde que os meios técnicos desencadearam essa proliferação de imagens, muita gente se pergunta hoje: o que há de novo para ser fotografado? Alguns são categóricos em afirmar que já não há mais nada. Num certo sentido, essa é uma conclusão tardia. Observamos nos livros de história da fotografia que, poucos anos depois de sua descoberta, artistas, cientistas e aventureiros já haviam se empenhado em documentar tudo aquilo que se podia imaginar: corpos celestes, seres microscópicos, países e comunidades exóticas do Oriente e das Américas, órgãos do corpo humano, vistas aéreas das cidades, guerras, todas as grandes personalidades, entre tantas outras coisas. Seguindo esse raciocínio, já faz tempo que se tornou difícil encontrar algo que ainda não tivesse sido fotografado. Mas até aqui a fotografia está sendo pensada em apenas uma de suas funções: a documental. Foram necessários quase cinquenta anos dessa história para se perceber que uma foto não serve apenas para reproduzir o universo visível, mas ela pode também recriá-lo em configurações que são inapreensíveis pela nossa atenção e pelo nosso olhar rotineiros. Não se trata de buscar então o que há de novo para ser fotografado, mas sim as novas maneiras como as coisas podem ser fotografadas. Os que perceberam isso, souberam explorar o mundo cotidiano através da fotografia como nenhuma outra arte o havia feito, transformando as coisas mais comuns em elementos de uma composição original. Pode-se passar com muita facilidade do banal para o inusitado (assim como, no sentido inverso, a documentação massiva acaba por banalizar qualquer novidade). De qualquer modo, a fotografia já não depende de temas pitorescos: nenhum grande evento, nenhuma personalidade importante, nenhuma moral da história. As cenas do dia-a-dia e as pessoas comuns passam a compor uma realidade que existe na fotografia, e não fora dela. Ou seja, a originalidade está na imagem e não no mundo concreto. E assim percebemos que ainda há muita coisa para ser vista, e a história da fotografia está apenas começando.
Imagens viagens de Douglas Costa As imagens que vemos nesta exposição, são bons exemplos da reciclagem visual que a fotografia promove. Recortadas de sua função usual, de seu espaço e de seu fluxo de tempo, algumas coisas já vistas por muita gente adquirem um novo significado, sobretudo, um significado estético. Estamos diante de um típico fotógrafo de rua, que tem na personalidade tudo aquilo que essa tarefa exige: raciocínio rápido e um olhar atento, operados numa atitude discreta. Hoje, o fotógrafo de rua é aquele que não fez concessões em sua forma de trabalhar. Dificilmente alguém chega a ganhar dinheiro com essas imagens, e há também toda uma pressão de tendências que apontam numa outra direção. Nosso herói aqui sobrevive em sua opção, exatamente porque corre por fora do mercado da fotografia, e porque faz seu trabalho com convicção, sem se preocupar em estar ou não na moda. Seu compromisso maior é com sua própria expressão. Trata-se de um fotógrafo amador, no sentido original desse termo: faz o que realmente gosta e apenas porque gosta. No Nelfoto (Núcleo de Estudos em Linguagem Fotográfica), ele foi um dos poucos que desde o início pareciam saber exatamente o que queriam da fotografia. Sua forma de fotografar se definiu muito rapidamente, e com clareza, numa dessas situações em que parece que o estilo descobriu um autor, e não o contrário. Trabalhamos juntos nesses últimos quatro anos e, se posso dizer que ensinei fotografia a várias pessoas que passaram pelo Nelfoto, é porque, antes, figuras como essa já estavam lá para me ensinar o que era o Nelfoto.
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