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PORTFOLIO |
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Futuro do pretérito Ronaldo Entler
Há alguns anos ouvi falar de Kenji Ota, um fotógrafo que fabrica seu próprio papel sensível, e que recupera e adapta processos do século passado. Sabia de outras pessoas que também faziam algo parecido, mas as poucas imagens de Kenji que conhecia já me intrigavam. Alguns pesquisadores da história da fotografia repetem, às vezes, antigas experiências como uma forma de obter dados mais concretos que venham a preencher lacunas de informação. Há também fotógrafos descontentes com a evolução dos materiais fotográficos e, denunciando suas imperfeições, buscam alternativas que lhes permitem atingir todos os tons de cinza, detalhes nas chamadas altas e baixas luzes, maior controle do grão etc. Mas o trabalho de Kenji não pode ser compreendido em nenhum desses contextos. Sua pesquisa não é arqueológica, ele não revira essas técnicas para resgatar um passado e apresentá-lo mumificado. De fato, Kenji faz história, num sentido abrangente e contemporâneo desse termo. Não se trata de descrever o passado como algo morto, de contar a história, mas de localizar aquilo que ainda pulsa e que, rompendo com a linearidade do tempo, ainda é capaz de determinar vida no presente da arte. O conceito de evolução também não pode aqui ser tomado. Não há técnica mais ou menos perfeita, porque não há um resultado previamente idealizado. Kenji experimenta cada processo sabendo aproveitar suas peculiaridades, aceitando os lugares distintos a que cada um permite chegar. Poderíamos ficar tentados a entender esse trabalho pelo o que ele pode estar negando: a industrialização, a referência, a figuração, a própria fotografia. Mas já foi dito que a arte tem o privilégio de, quando surge um dado novo, somá-lo aos que já existem, em vez de subtraí-los. Kenji é um exemplo disso. Ele não nega nada. Ao contrário, afirma cada uma das possibilidades que encontra. Isso fica patente no trajeto mostrado em Phasis: algumas vezes, sua fotografia ainda permite reconhecer objetos, noutras, o registro mais marcante é o de seu próprio gesto de espalhar a emulsão sensível pelo papel. Ele não descarta algumas etapas da técnica fotográfica convencional, sobretudo, a luz continua sendo a matéria fundamental. Mas não pára por aí. Percorre alternativas que vão do vídeo ao papel artesanal. É certo que há um questionamento: ele amplia o campo que pode ser percorrido pela fotografia e, assim, a revitaliza no universo da arte contemporânea. Mas não se trata de propor uma coisa contra a outra. Na verdade, seu questionamento é a provocação que está implícita em qualquer ruptura de fronteiras. Ao rompê-las, nos exige outros referenciais para a compreensão de seu trabalho: são fotografias, mas não são exatamente bidimensionais. Kenji produz texturas químicas, ondulações no papel, brilhos que apenas são vistos de certos ângulos, extrai de técnicas monocromáticas cores que se transformam conforme nos movimentemos à frente da imagem. E sua obra está em constante processo: uma imagem aparentemente concluída ainda permanece sensível à luz, a outras reações químicas e, principalmente, às inquietações do autor. Kenji se alimenta de um passado pulsante, recicla-o, confronta-o com seu momento e, com simplicidade, chega a um resultado original. No final das contas, suas técnicas são suas, e são absolutamente presentes. Seu ponto de partida é bem definido: há uma tradição, há uma fórmula química, muitas vezes. Mas há também a descoberta, a intuição, o desvio, o acaso, e um resultado jamais pode ser repetido. Seu processo é único, a cada vez.
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