PORTFOLIO
TEXTOS
Texto publicado no caderno de cultura do jornal O Valor Econômico, edição de fim de semana, 23, 24 e 25/03/2007.


Territórios, margens e tansgressões

Ronaldo Entler, 2007


A fotografia e a metrópole têm uma história comum, são fenômenos tipicamente modernos, produtos da racionalidade técnica, voltados para as massas como objetos úteis ou dedicados à contemplação. Nessa coexistência, a cidade se oferece à fotografia como suporte, a fotografia acolhe a cidade como tema privilegiado. E tanto uma como outra experimentam crises decorrentes de suas expansões e da pressão de suas fronteiras.

Desde sua origem, a fotografia se colocou numa posição ambígua: apresentava-se como forma precisa de registro, mas tentava se afirmar como manifestação estética aberta à subjetividade. Em vez de enfrentar essa dupla natureza, a história conduziu a uma cisão: de um lado, uma orientação documental, o fotojornalismo, a pesquisa científica, a prova jurídica, a denúncia social; de outro, suas possibilidades de manipulação, seus diálogos com a pintura, depois com os movimentos de vanguarda, a contaminação de outras técnicas, sua presença nas galerias de arte.

A fronteira simbólica que separa a arte da documentação nunca deixou de ser ameaçada pelos dois lados. Hoje, uma invasão mais sistemática e consciente de territórios coloca em risco as categorias que usamos para compreender a fotografia, mas resgatam o valor de sua complexidade que tardamos em reconhecer.

O que vemos no trabalho de Julio Bittencourt são imagens negociadas, poses que não escondem a interferência do fotógrafo no ambiente. O resultado é assumidamente construído: parte do recorte imposto ao olhar tanto pela pequena distância entre as paredes quanto pelo enquadramento da câmera, para depois recompor a forma do edifício de modo arbitrário. É um trabalho de expressão engajada, mas que evita a dramatização através do rigor de um jogo que o fotógrafo propõe a si mesmo: olhar para as janelas, a partir de janelas, algo que traduz bem nossa experiência fragmentária com a cidade. Mas, ao tornar evidente a manipulação, suas imagens permanecem válidas como documento, não deixam de nos confrontar com certa realidade, de tocar numa ferida sentida cotidianamente, de refletir sobre a história da cidade, paralela à da fotografia também em seus problemas.

A cidade se expande e constitui uma crise ainda mais problemática pois encontra a pressão de fronteiras que são tanto simbólicas quanto físicas: regiões, vizinhanças e zoneamentos, mas também paredes e acidentes geográficos. Em sua tentativa de acomodação, constrói, destrói, reconstrói, abandona e redefine seus espaços. Hoje, alguns desejos são unânimes: é preciso revitalizar a cidade. Mas o significado disso é polêmico: modificar suas funções ou apenas a paisagem? Reorganizá-la ou promover assepsia? Mudar seus hábitos ou também os habitantes?

Estas fotografias não oferecem uma resposta, mas dão conta da complexidade das forças que estão em jogo. Mostra a decadência dos materiais e a dignidade que sobrevive por trás deles. Relembra que a matéria da arquitetura não é apenas o concreto, no duplo sentido do termo. Revela o absurdo de uma política urbana que não integra, mas protege as pessoas da cidade, e vice-versa.

Esse é apenas mais um encontro entre a fotografia e a cidade, mas muito emblemático do que está por trás de suas respectivas crises. No final das contas, trata-se de discutir a legitimidade de alguns espaços demarcados ou, ao contrário, dos movimentos que levam às suas transgressões.