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Texto apresentado no Seminário Imagem e Pensamento, realizado no Sesc-Campinas, evento organizado por Etienne Samain e pelo Grupo de Reflexão Imagem Pensamento (GRIP), em maio de 2008.


A ciência e os matizes das linguagens

Ronaldo Entler, 2008


O que acontece quando misturamos cores? Depende... Podemos obter matizes, dégradés, passagens, efeitos não perceptíveis em cada cor isolada. Ou, ao contrário, podemos usar cada cor como filtro, de modo que, ao sobrepô-las, subtraímos os valores cromáticos que chegam aos olhos, obtendo uma cor homogênea e definida, porém mais escura. Enfim, podemos misturar cores para explorar a complexidade da luz ou, ao contrário, para filtrar a quantidade de luz e as várias cores que uma cor pode conter. Assim ocorre com as linguagens: ao confrontar a palavra e a imagem, podemos obter matizes de significação ou, ao contrário, podemos esperar que uma apare as arestas da outra, visando um sentido homogêneo e mais preciso.

A ciência teme a ambigüidade, busca refinar suas linguagens para poder dizer de maneira unívoca aquilo que julga verdadeiro. Dessa forma, tende a aproximar palavra e imagem quando vê nessa ação a possibilidade de delimitar o entendimento de seu discurso. Usa a imagem para ilustrar ou provar aquilo que fala, usa o texto para impor uma leitura àquilo que mostra. Nesses casos a junção pretende operar por decréscimo, eliminar ambigüidades de significação.

Conhecemos um bom número de teorias que discorrem sobre as especificidades da palavra e da imagem, normalmente situando-as em pólos opostos: a imagem mostra, a palavra conceitua; a imagem fala aos sentidos; a palavra, à razão; a imagem seduz, a palavra deduz. De um lado, isso já sugere a afinidade das ciências com a palavra e determina a subordinação da imagem. De outro, essa polarização – radical e simplista – visa minimizar os “dégradés” que surgem quando essas linguagens se esbarram.

Ao se perguntar sobre os potenciais das linguagens, a ciência não deixou de querer conduzi-los a um lugar absoluto. Se a vocação da imagem é mostrar, produzir analogias com o mundo, sua questão metodológica se torna como fazer a imagem coincidir com o mundo e a ele permanecer colado? Se a vocação das palavras é conceituar, a questão metodológica se torna como afastar a palavra das contingências do mundo, buscar aquilo que lhe é essencial, o sentido mínimo, único e imutável que se esconde em sua inconstância? Essas questões metodológicas são abusivas. Enquanto o positivismo se perguntava como usar a linguagem para dar exatidão às ciências do homem, o problema que reivindicamos agora é o de como humanizar as ciências através da complexidade que as linguagens sugerem.

Como minha especialidade é a imagem, tomei o desafio seguir essa discussão através da literatura; de metáforas construídas pela literatura, portanto, ainda através de imagens que desmontam a falência dessas pretensões.

No conto “Do rigor da ciência”, Borges aborda o desejo de dar à imagem o poder de representação totalitária. Ele fala de um Império que desenvolveu sua cartografia a tal ponto que os mapas das províncias ocupavam toda uma cidade, e o mapa do império, toda uma província. Não satisfeitos, quiseram então fazer um mapa do Império que coincidisse com toda sua superfície. Obviamente que tal mapa tornou-se inútil, foi esquecido, despedaçado, tornou-se ruínas habitadas por “mendigos e animais” (“Del rigor de la ciencia”, in El Hacedor).  Ao tentar contemplar todos os trajetos possíveis dentro de um território, ou se anula na incapacidade de dar orientações, de apontar direções a percorrer (outra forma de dizer “produzir sentidos”); ou esconde no deslumbramento que produz o território que pretendia representar (tese que está na base das teorias que denunciam a imagem como “espetáculo” ou “simulacro”).

Por sua vez, Maurice Blanchot, num ensaio chamado “A imagem plural”, lembra o mito de Admeto, suposto inventor do diálogo. Ao querer fazer uso da palavra, instrumento divino, Apolo profere sua sentença: “tu és apenas um mortal, por isso teu espírito deve nutrir dois pensamentos”. Desejando alcançar uma unidade que é divina, não humana, Admeto inventa o diálogo. Se alivia do peso de dessa simultaneidade, distribuindo em duas vozes antagônicas a ambigüidade de sua palavra mortal, para dela fazer emanar a unidade como uma síntese (como propõe a dialética). Segundo Blanchot, outro fracasso, pois isso exige a fantasia de um espaço simétrico de interlocução, pressupõe pessoas idênticas e unárias, apenas espelhadas em suas posições. Por fim, Blanchot sugere que a sentença de Apólo pode ter sido uma dádiva: ela convida o homem mortal a “deixar de pensar tendo em vista apenas a unidade; não ter medo de afirmar a interrupção e a ruptura, a fim de chegar a propor e a expressar – tarefa infinita – uma palavra verdadeiramente plural. Palavra que precisamente encontra sempre de antemão sua destinação (sua dissimulação também) na exigência escrita” (“Uma palavra plural”, in Conversa infinita).

A palavra não está tão distante dos fenômenos que possa alcançar um sentido livre de um “modo de dizer”, isto é, de uma sonoridade ou de uma grafia. Isso significa que a palavra não existe desprovida de uma imagem, de uma sonoridade, de uma performance que envolve também os sentidos. Nem a imagem está tão próxima dos fenômenos a ponto de coincidir com eles. Entre a imagem e o mundo, interpõem-se modelos culturais que operam a passagem de um a outro. Portanto, por mais que se acredite na capacidade de imitar o mundo, a construção da imagem nunca deixa de contemplar uma operação conceitual.

Uma metodologia que se proponha a aproximar imagem e palavra deve, primeiro, compreender que toda linguagem humana tem jogo, tem folga, tem ambigüidade, exatamente porque é humana. Segundo, além de visar um núcleo homogêneo da sobreposição das linguagens, uma interseção que possa recortar as possibilidades de leitura do discurso, deve aprender a olhar para os borrões que se foram em suas fronteiras para, através deles, tomar consciência de como representar o mundo é sempre uma tarefa complexa.

Se nos perguntamos sobre o que resulta da cumplicidade entre palavra e imagem, é preciso saber que raramente cúmplices garantem uma compreensão mais simples dos fatos com que se envolvem. Ao contrário, uma vez que os lugares de onde falam não coincidem, nos obrigam a perceber que quanto mais incrementamos a descrição do mundo, mais temos que lidar com as lacunas e as rebarbas do discurso.