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TEXTOS
Publicado no Jornal Esfera. São José dos Campos: Fundação Cultural Cassiano Ricardo, Junho de 1992.


Sapatos sujos, picadas de mosquito

Ronaldo Entler, 1992


Férias. Antes de sair de casa, você já  carrega sua kodak com um filme colorido e deixa no jeito dentro da bolsa para não perder nenhuma paisagem que passe de repente pela janela do ônibus. E assim também não perde nenhuma careta da turma, os novos amigos, a praça, o chafariz etc.

Na praia, quando o sol cai e o céu fica avermelhado, o dedo indicador começa a coçar: é um verdadeiro cartão postal. Depois é a vez do pessoal. Sorridentes e de costas para o mar, você se afasta e enquadra todos eles. Aproveita para incluir na foto a ilhazinha à esquerda, o coqueiro à direita e todo o degradê do céu ao fundo, e se afasta mais um pouco. Cada dia que passa, o pessoal fica mais animado, o pôr do sol, mais avermelhado e a câmera, mais esperta. Você registra tudo. Só que aí você se dá conta de que está acabando.

No último dia, resolve dar um passeio solitário pela praia, já sem aquela euforia de antes. Você até se surpreende falando com o mar, com a areia, as pedras, se despedindo, dizendo o quanto foi bom etc. E é aí que dirige seu olhar para uma sutileza qualquer, mas que o emociona de verdade. Você mal entende porque isso lhe desperta sentimentos tão vivos dessa viagem, mas levaria de lembrança se pudesse. E já que não pode, por que não fotografa?

Você tem dúvidas se vale a pena queimar uma chapa com isso, mas como tem mesmo que acabar com o filme para mandar revelar, então se perdoa. Você presta atenção na luz, não no sol, na luz que esse detalhe reflete. Gira em torno dele procurando o melhor ângulo, se aproxima, retirando do quadro tudo o que esteja sobrando, e clic.

De volta da viagem, você se atropela nas palavras na ansiedade de contar o quanto foi legal. Mas o bom mesmo é provar. No dia seguinte, bem cedo, manda revelar o filme nas automáticas de uma hora. À medida que vai colocando nos albinhos, você se lembra de boas histórias e se orgulha das paisagens que captou. O pessoal também está lá, tão distante na praia que mal dá para saber quem é quem, mas o pôr de sol ficou bonito. Aí você chega naquela última foto, muito diferente de todas as outras, sem nenhuma história especial. Mas ela lhe dá a sensação de ainda estar lá ou de ter trazido uma parte daquele lugar com você. Mas, por quê? Não importa.

Chegou a hora de reunir a tia, o vizinho e toda a turma para exibir suas grandes sacadas. Depois de muitas perguntas sobre todas as imagens, eles se detêm sobre aquela última foto somente o tempo que levam para fechar o albinho. E quando, frustrado, você insiste em mostrá-la à espera de qualquer comentário, vêm, no máximo, um "o que você quis dizer com isso?" Aí é você quem fecha rapidinho e desconversa.

Mais tarde e sozinho, você olha para ela e se questiona: o que é que eu quis dizer? Apesar de muito expressiva, ela não tem a beleza dos postais, não tem degradê avermelhado, e muito menos traz alguma "moral da história" como aquelas fotos que denunciam a pobreza nos jornais. E aí? Você provavelmente conclui  que fazer essa foto foi um desperdício, principalmente se considerar que poderia ter aproveitado esse tempo solitário que dedicou a ela para uma última farra com a turma.

Agora... se, num ímpeto de teimosia, você resolver desafiar as leis da fotografia familiar e continuar buscando imagens que pareçam não fazer sentido para ninguém além de você, se você ainda estiver disposto a queimar mais filme sem a certeza de agradar aos olhos mais interessados em saber de suas viagens, então aqui começa uma outra história...