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PORTFOLIO |
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Revitalizando um velho gênero Ronaldo entler, 1996 Dentre todas as funções a que a fotografia veio cumprir, o retrato foi a que canalizou a maior parte dos anseios do público de meados do século passado. Assim o retrato tornou-se historicamente uma expressão-síntese do potencial dessa nova técnica: fez os primeiros grandes artistas da fotografia e fez também a sua indústria. Muitos fotógrafos trabalharam essencialmente com retratos, e talvez não tenha havido um sequer que nunca os tenha feito. Hoje, quem se dedica a esse tipo de fotografia se beneficia de uma linguagem já universalizada, mas também corre o risco se perder em meio à redundância. É diante desse histórico que um livro como Jardim da Luz, de Bob Wolfenson irrompe com cerca de cem retratos em preto e branco nosso escasso mercado de livros de fotografia e, inevitavelmente, nos deixa apreensivos. Ficamos tentados a lançar algumas críticas antes mesmo de conhecê-lo: Bob é um dos mais badalados fotógrafos brasileiros, ficou conhecido pelas belas mulheres que fotografou para a Playboy, e seu livro exibe basicamente pessoas famosas de nosso país que estiveram à frente de sua câmera - artistas, políticos, lideranças, atletas, intelectuais, além de alguns representantes femininos da família Wolfenson, e um ou outro desconhecido. Enfim, o livro parece já ter justificativas fora de suas imagens, mas a questão é saber se ele se limita a isso. Em primeiro lugar, o público sempre esperou poder colecionar a imagem de seus ídolos através da fotografia, desde os primórdios dessa técnica, ou seja, essa é uma situação inerente a própria função social do retrato. E pioneiros como Nadar (1820-1910) e Étienne Carjat (1828-1906) já nos provaram há muito tempo que não necessariamente isso significa trocar o valor estético da imagem pelo valor de culto ao retratado. Em segundo lugar, não há nenhum desvio oportunista na escolha feita aqui. Bob Wolfenson é um fotógrafo que gosta de fotografar gente, e começou a se especializar nisso antes de poder contar com modelos célebres como os de seu livro. Sempre admirou o trabalho de mestres contemporâneos como Richard Avedon e Irving Penn e, quando já trabalhava profissionalmente, aventurou-se nos Estados Unidos para ser assistente de Bill King. Construiu seu espaço e conseguiu conciliar seu prazer àquilo que o mercado precisa mostrar. Vez ou outra, fotografa também alguns mortais, mas não tenta mascarar todas as badalações como sendo ossos do ofício. De fato, armou estratégias e suou muito para fotografar algumas figuras que admira. É verdade que o livro se apropria do prestigio dessas pessoas, mas ele não abusa disso. Excluindo algumas unanimidades, apenas descobriremos que alguns ali são famosos quando olharmos as páginas de identificação, discretamente, as últimas do livro. E seu autor também já não precisa disso: hoje, quando ele fotografa alguma personalidade, é difícil saber quem se beneficia do prestígio de quem. Deslumbramentos serão inevitáveis, mas o que se vê é mais do que um catálogo de rostos famosos e realmente vale olhar para as fotografias, além dos fotografados. É difícil identificar um estilo, porque Bob Wolfenson se permite explorar muito flexivelmente as possibilidades técnicas da fotografia, chegando às vezes ao limite da desfiguração. É nítida sua proposta de evitar fórmulas ao longo do trabalho. E não devemos esperar ver as celebridades em situações curiosas, deslocadas e atípicas, até porque seus retratos se esquivam desse tipo de retórica que chamamos de situações. Mas há algumas surpresas: caras limpas de maquiagens, rostos fragmentados, borrões de movimento, ângulos inusitados, problemas dermatológicos são detalhes que nos oferecem outras faces de seus personagens. Como o próprio fotógrafo faz questão de frisar, isso não significa a busca de uma essência. Se o livro parece alcançar uma maneira particular de apresentar essas pessoas, ele faz isso com os próprios recursos da fotografia, sem precisar lançar mão de qualquer discurso psicológico ou antropológico. As imagens apenas retratam, explorando uma boa medida entre o olhar transformador do fotógrafo e corpo que é fotografado, ou seja, nem pura transgressão e nem pura documentação. Não há efeitos mirabolantes, também não há exploração de textos, cores ou outros recursos gráficos. As fotos ocupam, sempre que possível, toda a página, sem molduras. Nesse sentido Bob Wolfenson é um purista e a priori isso não é nem bom e nem ruim. A intenção é a de que nos detenhamos sobre o plano da fotografia, mas isso não significa que o trabalho não tenha profundidade. O livro resulta de um projeto que foi sendo lapidado até os últimos dias, antes da impressão. Ainda que sem engajamentos teóricos, ele tem conceitos bem construídos. E o que significa isso? Significa que ele não é um mero apanhado de seus trabalhos. Além das fotos encomendadas para outros fins, Bob Wolfenson listou e correu atrás de algumas pessoas pensando exclusivamente em seu livro. Depois de prontas as ampliações definitivas, uma prova em xerox sugeriu que a distorção do contraste valorizava algumas imagens, e as cópias foram retrabalhadas. O corte das imagens, a sequência em que foram dispostas, e o diálogo entre aquelas que ficaram lado a lado constróem - ludicamente - uma série de pequenos significados: o anel macabro de Angeli ao lado do crucifixo de D. Paulo Evaristo Arns; o bebê de Malu Mader olhando para o ursinho de Edmundo, uma parceria provocativa entre a sem-terra Diolinda Alves, à esquerda, e o bem abrigado Paulo Francis, à direita; ou simplesmente um encontro entre dois Arnaldos (o Jabor e o Antunes) na mesma pose. Algumas dessas coisas certamente foram pensadas minuciosamente, mas o próprio autor continua descobrindo muita coisa no livro, depois de editado. Por isso, vale a pena procurar esses resultados, mas não as regras do jogo. Há um único texto onde o Bob Wolfenson apresenta sucintamente seu projeto. Essa economia reafirma o livro como um produto imagético, mas nos priva de algumas boas histórias que poderiam enriquecer o contato com as fotografias. A verdade é que esse trabalho é um dado dentro de uma história maior: Bob Wolfenson evita falar de si mesmo, em parte, por uma certa humildade, mas também porque já é conhecido o suficiente e há outros canais para chegarmos a essas informações. O livro também dispensa a narrativa, porque ela já acontece fora dele. Não há um dia sequer que não possamos ver alguma coisa sobre algum de seus retratados na imprensa. E esse decorrer dos fatos cria uma dinâmica curiosa: da noite para o dia, os heróis que o livro contém podem se tornar vilões, e vice-versa. Aproveitamos ainda para matar a saudade de algumas figuras como Elis Regina, Lina Bo Bardi, Hélio Oiticica e Leonilson. Jardim da Luz não precisa de nenhum recurso espetacular para se destacar dentre a proliferação secular dos retratos. Mais do que ser original, é um trabalho que está preocupado em ser autêntico: responde com genialidade àquilo a que se propõe. Como fotografia direta, corre por fora de algumas discussões às vezes mal localizadas das tendências da arte fotográfica contemporânea, mas se reflete nela de alguma forma. Vemos que é possível operar conceitos atuais dentro de um velhos gêneros da arte, como o do retrato, que assim se revitalizam e se mantêm contemporâneos. |
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